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Os Três Cabelos de Ouro do Diabo

KHM 029

Há muitos e muitos anos, numa casinha pobre, nasceu um menino bonito e forte, mas que, ao contrário de todas as outras crianças, nasceu com todos os dentes na boca. Os pais, assim que o viram, ficaram muito assusta-os, pensando se tratar de alguma bruxaria. As vizinhas, entretanto, os tranqüilizaram, dizendo que nascer com dentes era sinal de boa sorte. E uma delas, que era considerada feiticeira, profetizou que o menino, ao com-pletar quinze anos, se casaria com a filha do imperador do país.

Um dia, quando o menino ainda era bem pequeno, o imperador passou casualmente pela vila e ouviu contar a história da criança, que era chamada de o "Filho da Sorte." In-dignado com a possibilidade de ver sua filha casada com um tipo qualquer, pobre e de ori-gem humilde, o imperador resolveu dar um jeito de impedir que a profecia se cumprisse.

Dizendo-se um rico comerciante, apresen-tou-se na casa onde vivia o Filho da Sorte. Tomou a criança nos braços e, fingindo-se en-cantado com sua beleza, disse aos pais que era muito rico e não tinha ninguém a quem deixar sua herança. Por isso, gostaria muito de poder levar o bebê e criá-lo como se fosse seu filho. O casal, a princípio, não aceitou a proposta, mas o imperador foi tão hábil e convincente que os fez acreditar que daria ao menino uma vida muito melhor do que ele teria naquela casa pobre.

Assim, o perverso imperador levou con-sigo o pequeno Filho da Sorte e, logo que se viu sozinho, fora da cidade, colocou-o numa caixa e atirou-a ao rio, na certeza de que ela afundaria, matando a criança.

Mas o menino parecia merecer mesmo o nome de Filho da Sorte, pois a caixa, em vez de afundar, saiu flutuando rio abaixo, indo parar no açude de um moinho.

Um velho moleiro que ali trabalhava, pensando ter encontrado um tesouro, foi cor-rendo tirar a caixa da água. Quando a abriu, ficou comovido por ver uma criança tão linda e esperta abandonada para morrer. Como não tinha filhos, levou o bebê para casa. A mulher do moleiro ficou muito feliz, e o Filho da Sorte cresceu ali, rodeado pelo carinho dos pais adotivos.

O tempo passou e, um dia, alguns meses depois que o menino havia completado quinze anos, o imperador e sua comitiva viajavam pela região quando caiu uma tempestade muito forte. Como não havia nada por perto a não ser o moinho, o imperador foi obrigado a pedir abrigo na casa do velho moleiro.

O casal de velhos o recebeu muito bem. Para que o tempo passasse mais depressa, ficaram conversando com o imperador. Não demorou para que a beleza e a vivacidade do Filho da Sorte chamassem a atenção do mo-narca, que perguntou ao moleiro se o menino era seu filho. A mulher, inocentemente, res-pondeu-lhe que não, e acabou contando a his-tória de como haviam encontrado a criança.

Quando ela terminou de falar, os olhos do imperador estavam vermelhos de ódio, pois ele logo se deu conta de quem era o rapaz. Furioso por ele ainda estar vivo, começou imediatamente a pensar num jeito de liqui-dar o moço de uma vez.

Como estava no meio de uma grande via-gem e demoraria muitos meses para voltar ao palácio, o imperador ficou com medo de que a profecia se concretizasse durante sua au-sência. Assim, resolveu agir rapidamente e, dando algumas moedas aos velhos, pediu-lhes que deixassem o rapaz levar uma mensagem à rainha, na capital do reino. Em seguida, mandasse à sua mulher ordenando que ela mandasse executar imediatamente o rapaz que lhe entregasse aquela carta.

No dia seguinte, bem cedinho, lá se foi o Filho da Sorte na direção da capital do reino, sem saber que levava nas mãos sua própria lentença de morte.

Andou o dia inteiro, sem descanso, pois queria chegar logo ao palácio. No entanto, como nunca havia deixado a vila em que mo-rava, o rapaz se desviou do caminho certo e acabou se perdendo no meio da floresta.

Quando já estava anoitecendo, o Filho da Sorte viu, numa clareira, uma cabana, onde resolveu pedir ajuda. Bateu à porta e uma velhinha muito bondosa veio atender. Á mulher o acolheu com simpatia e, depois de ouvir sua história, deu-lhe de comer e de be-ber, mas avisou-lhe que seria melhor ele não dormir ali, pois aquela cabana servia de es-conderijo a perigosos ladrões, que certamen-te o matariam quando o encontrassem.

O rapaz, entretanto, não teve medo e in-sistiu tanto que a boa senhora arranjou-lhe um canto da cabana onde pudesse dormir aquela noite.

De madrugada, quando o Filho da Sorte dormia a sono solto, chegaram os ladrões. A velha, temendo pela vida de seu hóspede, avi-sou aos malfeitores que havia alguém na ca-bana, mas que se tratava apenas do filho de um moleiro que estava a caminho da capital para levar uma carta do imperador à mulher.

O chefe dos bandidos ficou muito curioso para saber o conteúdo da carta e a abriu para ler. Ao ver a maldade que estava fazendo com o pobre rapaz, ficou indignado e resol-veu pregar uma peça no malvado soberano. Imitando a letra do imperador, escreveu uma nova mensagem à rainha, ordenando que ela casasse imediatamente a princesa com o portador daquela carta. Em seguida, quei-mou a carta verdadeira e colocou a outra em seu lugar.

Na manhã seguinte, o Filho da Sorte, sem saber de nada, partiu. Orientado pelo pró-prio chefe dos ladrões, encontrou facilmente o caminho certo para a capital e horas de-pois se apresentava no palácio.

A rainha, ao ler a mensagem que julgava ler de seu marido, preparou tudo para o casamento, que se realizou naquela mesma tarde, na capela do palácio.

* * *

Meses depois o imperador voltou de sua viagem e, vendo sua filha casada com o filho do moleiro, ficou furioso com a mulher, lista, sem entender por que o marido estava tão bravo, mostrou-lhe a carta que havia re-cebido. Como não havia mais remédio para a situação, o imperador decidiu não punir nem a mulher nem o genro, para a felicidade da princesa, que gostava muito do marido. Por outro lado, era impossível aceitar que a princesa vivesse casada com um tipo qual-quer, sem eira nem beira, como aquele; por isso o imperador chamou o genro e lhe disse:

"Para eu consentir que você e minha filha continuem vivendo juntos, é preciso que você se torne digno de ser um príncipe rea-lizando alguma façanha. Por isso, eu lhe dou uma tarefa para cumprir: quero que vá até o inferno e traga de lá três cabelos de ouro do Diabo. Se conseguir realizar esse feito, quando voltar eu o farei príncipe.

O Filho da Sorte, esperto e valente como era, partiu sem demora rumo ao inferno.

* * *

Caminhou durante muitos dias, até che-gar à porta de uma grande cidade, onde uma sentinela lhe perguntou que problemas ele sabia resolver.

"Todos!"

"respondeu o rapaz.

"Todos?!"

"disse o guarda."

"Então faça-me o favor de dizer por que a fonte do nosso mercado, que antes jorrava um vinho delicioso, agora está tão seca que não solta nem uma gota de água!

"Não posso responder agora"

"ele res-pondeu -, mas, se me deixar passar, eu lhe trarei a resposta na volta.

A sentinela, confiando na palavra do rapaz, abriu as portas da cidade para que ele passasse.

O Filho da Sorte seguiu seu caminho e alguns dias depois chegou à porta de uma outra cidade, onde havia outra sentinela que também lhe perguntou que problemas ele sa-bia resolver.

"Todos!"

"respondeu ele mais uma vez.

"Ah, é?"

"disse a sentinela."

"Então me responda por que é que a árvore grande dos jardins do nosso rei, que antes dava fru-tos de ouro, agora está tão seca que não tem nem uma folha mais!

"Nao posso responder agora"

"disse o moço -, mas, se me deixar passar, eu lhe trarei a resposta na volta!

O guarda também acreditou em sua pa-lavra e o deixou seguir.

Alguns dias depois, o filho do moleiro che-gou a um grande rio que precisava atraves-sar para chegar ao inferno. Só havia ali um barqueiro que, ao vê-lo, perguntou a mesma coisa que as duas sentinelas. Quando ouviu o rapaz dizer que sabia resolver todos os pro-blemas, o barqueiro, interessado, disse-lhe:

"Meu jovem, se você sabe mesmo de tudo, então me explique logo por que eu pre-ciso ficar a vida inteira sendo barqueiro, atra-vessando gente de um lado para outro do rio, sem nunca encontrar uma alma boa que ve-nha me substituir neste trabalho!

"Não sei explicar o motivo"

"disse o Filho da Sorte -, mas, se me levar à outra margem, prometo que na volta eu trarei a resposta à sua pergunta!

O barqueiro também acreditou na pala-

vra do Filho da Sorte e o levou para o outro

lado do rio.

Bem perto dali ficava a porta do inferno. O rapaz bateu bem forte e esperou ser aten-dido. Algum tempo depois, apareceu à porta a avó do Diabo, dizendo que seu neto não estava. Como ela parecia ser uma boa pes-soa, o moço contou-lhe sua história, e a velha, condoendo-se da sua situação, resolveu ajudá-lo.

"Mas se o meu neto o encontrar aqui"

"disse ela -, vai ficar tão furioso que vai que-rer matá-lo no mesmo instante e comê-lo as- sado no jantar. Por isso preciso escondê-lo.

Assim, a velha transformou o Filho da Sorte numa formiguinha e o escondeu numa das dobras de sua saia.

Minutos depois, chegava em casa o Dia-bo, e já vinha faminto, pois havia sentido cheiro de carne humana, seu prato predileto. Farejou por todos os cantos do inferno, mas, como nada encontrasse, a velha lhe disse:

"Você anda com mania de sentir cheiro

de gente! Venha comer que eu matei um franguinho novo especialmente para. o seu jantar!

O Diabo comeu até fartar-se e, depois, como era seu costume, deitou-se no colo da avó para que ela lhe fizesse cafuné. Dali a pouco, dormia profundamente e a velhinha aproveitou-se disso para arrancar o primeiro fio de ouro de sua cabeça.

"Ai!"

"gritou Satanás."

"Que é que

você está fazendo, minha avozinha?

"Nada"

"respondeu a velha."

"É que tive um sonho mau e acordei agarrada em seus cabelos!

"E qual foi o sonho que teve?"

"pergun-tou o Diabo.

"Sonhei que a fonte do mercado de uma cidade, que antigamente só jorrava vi-nho, agora anda tão seca que não solta nem uma gota de água.

Satanás deu uma gostosa gargalhada e depois respondeu:

"É verdade! É verdade! É que existe uma pedra tampando o nascedouro da fonte!

Se a tirarem, a fonte voltará imediatamente a jorrar vinho.

A avó do Diabo voltou a fazer cafuné na cabeça do neto e logo depois ele dormia tão pesado que roncava. Quando estava num sono ferrado, a velha aproveitou para arran-car o segundo fio de cabelo.

"Ai! Ai! Ai!"

"fez ele de novo."

"O que é que aconteceu agora?

"Eu sonhei outra vez!"

"disse a avó.

Desta vez foi com uma outra cidade onde havia, no jardim do rei, uma árvore que dava frutos de ouro e que agora está cada dia mais seca!

O Diabo riu gostosamente e respondeu:

"Isto também é verdade, minha avó! E sabe por que a árvore secou? Porque em- baixo dela há um rato que diariamente rói suas raízes. Se matarem o rato, a árvore fi-cará verde outra vez. Se o deixarem lá, ela ficará cada dia mais seca, até morrer!

Depois de dizer isso, Satanás ajeitou de novo a cabeça no colo da avó e, logo, emba-lado pelo cafuné, dormia outra vez. A velhi-nha aproveitou então para arrancar o tercei-ro fio e ele, acordando por causa da dor, gri-tou furioso:

"Ai, minha avó! Seus sonhos vão aca-bar me deixando careca! O que foi desta vez?

"Sonhei com um barqueiro"

"disse a avó"

"que se queixava de ficar eternamente passando gente de uma margem para outra< do rio sem nunca encontrar alguém que o substituísse nesse trabalho sem fim!

"Ah!"

"respondeu o Diabo, dando outra gargalhada."

"Esse barqueiro é um bobo! Se ele quiser sair de lá, é preciso apenas que abandone os remos na mão da primeira pes-soa que aparecer pedindo para passar à outra margem do rio! A pessoa não terá outro re-médio senão tomar o lugar do barqueiro!

Como já estava de posse dos três fios de cabelo, e já havia obtido as respostas para as três perguntas, a velhinha finalmente dei-xou Satanás dormir sossegado.

Logo de manhã, dizendo ao neto que ia buscar água, a avó do Diabo saiu do inferno e retirou a formiguinha da dobra da saia, restituindo ao Filho da Sorte a forma huma-na. De posse das três respostas, o rapaz pe-gou os três fios de cabelo de ouro e, depois de agradecer muito à -velhinha, iniciou o ca-minho de volta.

Logo chegava outra vez à margem do grande rio e o barqueiro, ansioso, perguntou pela sua resposta.

"Primeiro você precisa me levar ao outro lado"

"respondeu o rapaz.

E, assim que o barqueiro o atravessou, o moço ensinou-lhe como deveria fazer para escapar da sina de ser barqueiro eternamen-te. Muito feliz, o homem agradeceu a ajuda e o Filho da Sorte seguiu seu caminho.

Depois de alguns dias, chegava ao portão da cidade onde existia a árvore que dava fru-tos de ouro. Ensinou à sentinela o que se de-via fazer para recuperar a árvore, e o ho-mem, agradecido, deu-lhe como recompensa dois jumentos carregados de ouro e pedras preciosas.

Mais à frente, passou outra vez pelo por-tão da cidade cuja fonte de vinho havia se-cado. A sentinela logo indagou da resposta e o moço ensinou-lhe o que fazer, conforme havia ouvido da boca de Satanás. Muito feliz, o guarda deu-lhe mais dois jumentos carre-gados de ouro e lá se foi o Filho da Sorte, rumo ao reino de seu sogro.

Chegou ao palácio muito satisfeito, pois, além de haver cumprido a façanha exigida, estava agora muito rico.

A princesa, sua esposa, o recebeu com muita alegria e o imperador, depois de ter em mãos os três cabelos de ouro e ver a ri-queza que o genro trazia, permitiu que ele vivesse com sua filha e o tornou príncipe.

Tudo ia muito bem no palácio, mas o im-perador era muito ambicioso e morria de curiosidade para descobrir como e onde o genro havia conseguido tantas riquezas.

Um dia, não resistindo mais, acabou per-guntando, e o Filho da Sorte lhe respondeu:

"Foi muito fácil, meu sogro! No cami-nho para o inferno há um grande rio onde está sempre um barqueiro que atravessa todas as pessoas. É só pedir para ele atravessá-lo e colher, na margem de lá, todo o ouro que pu-der carregar, pois o ouro ali é a areia do chão!

"E eu posso ir até lá pegar ouro para mim também?"

"perguntou o imperador.

"Claro, meu sogro!"

"respondeu o ra-paz."

"É só falar com o barqueiro!

O ganancioso imperador saiu logo na ma-nhã seguinte, ansioso por encontrar o lugar onde havia tanta riqueza. Viajou por vários dias e, de fato, acabou encontrando o barqueiro. Este, que aguardava ansiosamente o aparecimento de alguém, assim que o impe-rador lhe pediu que o atravessasse, entregou-lhe com satisfação os remos e disse:"

"Atravesse você mesmo, ora! Movido pela ambição, o imperador acei-tou a tarefa e saiu remando, enquanto o bar-queiro, feliz da vida, saía por esse mundo afora, livre outra vez.

E dizem que até hoje o imperador está lá, Cumprindo a eterna tarefa de atravessar gen-te de um lado para outro do rio.

Quanto ao Filho da Sorte, viveu feliz por muitos e muitos anos, junto com a princesa, sua amada esposa.

------ fim -----

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